sexta-feira, 4 de julho de 2014

Balak - Você é gente boa?

            Por estudar fora do Brasil e estar constantemente viajando e tendo que resolver imprevistos, tenho de lidar com um grande numero de pessoas, de diversas culturas e estilos. Muitas dessas vezes acabam me proporcionando uma situação na qual é muito fácil brigar, ficar nervoso, e falar coisas não tão agradáveis. Certa vez, em um voo que peguei de Nova Iorque para Madrid, fui atendido por um aero moço espanhol tão rabugento (daqueles velhos e bigodudos), que me deu vontade de falar umas poucas e boas para ele. A televisãozinha de meu lugar estava quebrada, ele não conseguia consertar, ficou nervoso comigo, e jogou a culpa em mim! Como se eu a tivesse quebrado. Apesar da opção que tenho de ser ríspido, sempre tento me controlar, manter a calma, e agir da melhor forma possível com todos à minha volta.
Na Parashá dessa semana, encontramos o primeiro e único profeta não judeu que existiu em toda a história: Bilam. Ele falava diretamente com Hashem, é verdade que não na mesma intensidade com a qual profetas judeus o faziam, porém ele conseguia dialogar com Hashem, e ouvir diretamente Dele suas ordens. Balak, rei de Moav estava com medo da força do povo judeu que se aproximava, e então chamou Bilam para amaldiçoa-los. Quem sabe o povo não sofreria uma derrota numa luta espiritual.
Todos conhecem o resultado das tentativas de amaldiçoar o povo executadas por Bilam: inintencionalmente, ele acabou abençoando o povo com bênçãos muito poderosas, falando as palavras que Hashem colocou em sua boca. Nessas bênçãos, são encontradas muitas parábolas e exemplificações. Poucas palavras e expressões são interpretadas literalmente. Por isso, explica o Rebe, Rashi dá explicações que não são muito comuns para o seu estilo de comentário. Geralmente, ele se dedica a explicar dificuldades e contradições nos psukim, esclarece coisas básicas. Porém, sobre a profecia de Bilam, Rashi traz explicações muito profundas e um pouco afastadas do sentido literal, uma vez que não é possível entender o que é dito sem estas.
Um dos assuntos citados na profecia de Bilam é o desejo que ele tem de ter uma morte como a das pessoas “corretas” de Am Israel. Ou seja, ele almejava atingir o nível elevado das pessoas corretas do povo judeu, quando chegasse a hora de sua morte. Quem são essas pessoas elevadas, e o que elas tinham de especial?
Logicamente, Bilam não poderia estar almejando atingir um nível espiritual como o dos lideres de Bnei Israel, pois ele sabia que era um profeta não judeu e que suas raízes vinham da impureza. Explica o Rav Tubi, rabino chefe do Kolel da Yeshiva de Kerem BeYavne, que Bilam almejava chegar no mesmo nível de Avraham, Itschak e Yaakov, nossos três patriarcas. Estes eram os “corretos”, a quem Bilam se referiu. Mas qual característica esses três tinham em comum, que Bilam gostaria de ter também?
Nossos três patriarcas, além de muitas outras características positivas, se destacavam por sua relação com as outras pessoas. O seu comportamento interpessoal era exemplar. Não apenas com pessoas de suas famílias, de seu povo. Eles eram íntegros na maneira como lidavam com pessoas de outros povos também.
Vemos isto em Avraham, quando ele rezou copiosamente para que a cidade de Sdom não fosse destruída. Só desistiu de seu pedido quando Hashem lhe garantiu que isto não era mais possível. Mesmo que ele não tinha nada a ver com Sdom! Também vemos isso em Itzchak, quando ele sempre tentou fazer a paz com Avimelech, um rei que era seu inimigo, e vivia destruindo os seus poços de água. E Yaakov, ao constantemente fazer as pazes com Lavan, apesar da péssima conduta deste que sempre tentou o enganar, também se destacou pelo seu relacionamento com os outros seres humanos. Nossos três patriarcas, sempre procuravam a paz e a serenidade em suas vidas, evitando qualquer intriga com quem fosse.
Bilam, na hora que estava abençoando o povo judeu, se viu fazendo o oposto de nossos patriarcas. Ele estava tentando amaldiçoar um povo inteiro, desejando o pior para milhares de pessoas. Por isso, um de seus pedidos em sua profecia foi que ele alcançasse o nível  de Avraham, Itzchak e Yaakov, virando uma pessoa melhor.

A forma como nos comportamos e nos relacionamos com toas as pessoas, definem quem realmente somos. Não apenas com conhecidos, amados e parentes. Com todos. Cada pessoa é uma criatura de Hashem, e deve ser respeitada. Não somos um povo que descriminaliza, como fazem outros por aí. Cada ato que praticamos, possui uma consequência muito grande. Por um bom dia ou um obrigado, podemos causar que pessoas respeitem e admirem mais ainda o nosso povo. Quando melhorarmos nosso comportamento externo, poderemos melhorar a nós mesmos internamente.
Que esse Dvar Torá, seja para a elevação da alma de Eyal, Guilad e Naftali, seqüestrados e brutalmente assassinados por terroristas. Que Hashem vingue os seus sangues.

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