quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Noach - A recriação do ser humano


A Parashá dessa semana começa de uma maneira muito dramática, quando Hashem decide mandar um dilúvio para a terra, a fim de destruir os seres humanos, que estavam completamente corrompidos, cometendo inúmeros pecados. Apenas Noach e sua família se salvaram. Sendo assim, é possível dizer que Noach e sua esposa eram os novos “Adam e Chava” do mundo. Afinal, tudo havia voltado à estaca zero, e eles foram os responsáveis por repovoar o planeta.
Porém, a comparação entre as parshiot Noach e Bereshit vai muito além de seus protagonistas. O Rabino Lorde Jonathan Sacks explica que é possível traçar um paralelo entre os capítulos 1-3, de Bereshit, e 8-9, em Noach. Primeiramente, nas duas ocasiões ocorre a repetição de uma palavra exatamente sete vezes. Em Bereshit, a palavra é “Tov”, bom. Já em Noach, é “Brit”, pacto. Além disso, em ambas as Parshiot consta uma comparação entre o homem e D’us. Em Bereshit está escrito que Hashem criou o homem conforme Sua própria imagem. Já em Noach, essa comparação é trazida em uma conotação bem mais complicada, quando Hashem disse para Noach e seus filhos, assim que saíram da arca: “quem derrama o sangue de um ser humano, seu sangue será derramado, pois o homem foi feito na imagem de D’us” (Noach 9, 6).
É muito forte a diferença entre os contextos das duas Parshiot. E para entender essa diferença, temos de voltar um pouco no tempo, ates da criação do homem: “E disse D’us: vamos criar o homem” (Bereshit 1,26). Explicam nossos sábios que o passuk utiliza o plural (vamos), pois antes do homem ser criado, houve um debate entre dois grupos de anjos: os anjos da bondade e da justiça advogaram a favor da criação do ser humano, pois este possuiria um grande potencial para praticar bondades e fazer justiça. Porém, os anjos da paz e da verdade foram contra, uma vez que o homem lutaria guerras e contaria mentiras. No final desse debate, Hashem, ao ouvir os dois lados da moeda, criou o homem e lhe deu o livre arbítrio, com a esperança de que este naturalmente se tornasse bom. Por esse motivo, a comparação entre a imagem do homem e a imagem de D’us é trazida, devido ao potencial que o ser humano tem de criar, calcular, refletir, decidir, e, sendo criado com a imagem de D’us o homem deveria usar tudo isso para o bem.
Porém, infelizmente não foi o que aconteceu. Adam e Chava pecaram, ao comer do fruto no Gan Eden. Cain assassinou o seu irmão. Na época de Noach, o mundo estava caótico. Como diz a Torá, “Hashem viu como a maldade do ser humano era tanta na terra, e sua inclinação era ruim constantemente” (Bereshit 6,5), então decidiu destruir as pessoas, e recomeçar do zero. Esse recomeço não foi apenas físico. Foi também, e, principalmente, conceitual. A partir do momento que Noach saiu da arca após o diluvio, Hashem fez pactos com ele e seus filhos, lhes indicando como deveriam ser as suas condutas, colocando leis e limites dentro dos quais o homem deveria agir. Por isso que a imagem de Hashem em Parashat Noach é comparada com a do ser humano em relação à proibição de matar. Pois o mundo ao qual Noach deu inicio passou a ser o mundo das leis e do comprometimento. Uma vez que a raça humana foi criada com a imagem de D’us, é proibido tirar a vida de um companheiro.

Agora podemos entender a diferença das palavras que são repetidas. Em Bereshit, quando Hashem criou o mundo, tudo estava ótimo. As plantas, os animais, os astros, o céu, a terra. Por isso que a palavra “Tov” foi repetida tantas vezes. Porém, os seres humanos não seguiram este padrão, como disse Hashem depois do dilúvio: “e Eu não amaldiçoarei mais a terra por causa do homem, pois o homem possui uma má inclinação desde sua juventude” (Noach 8,21). Os seres humanos não são naturalmente bons. E a solução para isso são os “pactos”, palavra repetida em Noach.

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