A
Parashá dessa semana se dedica quase que completamente a relatar a construção do
Mishkan, meio que repetindo os mesmos psukim de Parashat Trumá, onde foi
ordenada a construção do santuário. Porém, antes do inicio da narrativa sobre a
construção do Mishkan, a Torá menciona mais uma vez a mitsvá do shabat. Sabemos
que muitas são as proibições do shabat. Porém, especificamente uma delas foi
mencionada nessa passagem, junto com a ordem geral do shabat: “não acenderão o
fogo em suas casas durante o dia do shabat” (Shmot38,3). Qualquer pessoa que
pensar com um pouco de lógica, perguntará: por qual motivo a proibição do fogo,
dentre todas as outras melachot, foi a única mencionada junto com a mitsvá do
shabat?
Na
verdade, a Gemará discute esse assunto, porém não oferece uma explicação de
porque especificamente o fogo. Explica o Rabino Yonatan Eybeschütz (1690-1764,
Praga), em seu livro sobre o chumash, Tiferet Yehonatan, que a Torá quis evitar
um mal-entendido. Sabemos que os 10 mandamentos estão escritos duas vezes na
Torá. Na primeira versão, o motivo que a Torá dá para a Mitsvá do shabat é o
fato do mundo ter sido criado em 6 dias, e o 7o ser o dia do
descanso. Sendo assim, poderíamos pensar que só estão proibidas no shabat ações
ligadas com os primeiros 6 dias da criação, pois são destes que precisamos “descansar”.
Dizem nossos sábios que o fogo, porém, foi criado na noite do 7o dia
do mundo por Adam Harishon, quando este raspou uma pedra na outra (assim como
se imagina que os homens primitivos faziam). Inclusive, é por esse motivo que
acendemos uma vela na Havdala, depois do shabat. Portanto, as pessoas poderiam pensar
que acender o fogo não é uma das proibições do shabat, pois descansar do mesmo não
estaria dentro dos propósitos do 7o dia, uma vez que ele foi criado
depois do próprio shabat. E para especificar que esta é uma melacha como todas
as outras, a Torá escreveu claramente que não se pode acender fogo.
Fica
muito clara essa explicação ao analisarmos a segunda vez que os 10 mandamentos
aparecem, no livro de Devarim. A Torá, interessantemente, deu outro motivo pelo
qual cumprimos o shabat. Ao invés de dizer que é para lembrarmos a criação do
mundo e o dia do descanso, a explicação oferecida é que cumprimos o shabat para
lembrarmos a saída do Egito. Sendo assim, diferentemente da primeira razão, não
concluiríamos desta que nenhuma melacha está permitida no shabat, pois esse
motivo não deixa de fora nenhuma das ações. Por isso, a melacha do fogo não é mencionada
nas outras vezes que o shabat é lembrado no livro de Devarim. Pois deste não
sairia nenhum mal-entendido, e nada precisou ser esclarecido.
As
palavras da Torá, são muito claras. Quando estudamos gemará, percebemos como
tudo se encaixa, tudo faz sentido. Diversas explicações dos milhares de
comentaristas, apenas exibem a vastidão do mundo das palavras da Torá. Desde o
momento em que Adam raspou duas pedras e descobriu o fogo, um turbilhão de
ideias já estava sendo desenvolvido, contribuindo para a infinidade da Torá.

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