Em uma época na qual alguns de meus amigos começaram a noivar (Mazal
Tov!), é inevitável que o assunto “shiduch” surja quando uns conversam com os
outros. Papo vai papo vem, muito se escuta sobre o que alguns procuram em sua
futura amada. Um dos assuntos que mais se comenta, é a importância de se
encontrar uma menina que tenha midot, boas virtudes; um bom caráter. Essa frase
pode até parecer um clichê, porém as coisas não são tão simples quanto parecem.
Vejamos um exemplo em nossa Parashá.
A porção dessa semana se inicia com Yossef tendo dois sonhos muito
estranhos. No primeiro, ele e sua família estavam representados por feixes de
trigo, o de Yossef estava no meio, e de repente todos se curvaram para ele. No
segundo, os irmãos de Yossef estavam representados por estrelas, Yaakov, seu
pai, era o sol, e Rachel, sua mãe, era a lua. No final, todos mais uma vez se
curvaram pra Yossef.
É famoso e explícito o fato de os irmãos terem ficado muito bravos com
Yossef ao ouvirem esses dois relatos. Porém, ao analisarmos com cuidado os
psukim, podemos notar uma grande diferença na forma como os irmãos reagiram ao
ouvirem o primeiro e o segundo sonho. Ao escutar o primeiro, diz a Torá que os irmãos de Yossef passaram a odiá-lo.
Antes disso já não “iam com sua cara”, porém após Yossef se manifestar, a
situação ficou muito mais tensa. Já depois do segundo relato, está escrito que
os irmãos tiveram inveja de Yossef. Por que a diferença? Por que os irmãos só
tiveram inveja de Yossef após o segundo sonho?
Explica o livro Beit Halevi que para entender a reação dos irmãos,
precisamos compreender qual era o real significado de cada sonho. O primeiro
envolvia os feixes de trigo dos irmãos se curvando ao feixe de Yossef. Isso
significava que Yossef os dominaria materialmente. Esse sonho foi uma visão que
no futuro Yossef teria o poder material, e seus familiares se subjugariam a ele
para poder se sustentar. Já o segundo sonho, envolveu os astros: as estrelas, o
sol e a lua, que significam a espiritualidade, o caráter, os bons valores da
pessoa. Yossef sonhou que seria uma melhor pessoa do que seus irmãos no âmbito espiritual.
Por isso a inveja só veio após escutarem o segundo sonho. O primeiro
envolvia uma supremacia material, algo exterior ao nosso corpo, às nossas almas.
E isso não era motivo para os irmãos sentirem inveja. Os irmãos não se curvaram
para o próprio Yossef, e sim para o seu feixe de trigo, que representa o seu
poder financeiro. Por isso, sentiram “apenas” ódio. Porém, o segundo sonho se
tratava de assuntos espirituais. Yossef lhes mostrou que seria o líder, que os
dominaria em Torá, em
santidade, teria um melhor caráter e melhores virtudes. Detalhes que estão
intrínsecos na pessoa, que influenciam diretamente em quem ela é. Detalhes
estes que fazem alguém se tornar uma pessoa especial. Por isso, nesse sonho, os
irmãos se curvaram diretamente para o próprio Yossef. Pois ele previu que sua própria
pessoa seria melhor do que eles, atingira níveis mais elevados. E exatamente
por esse motivo os irmãos tiveram inveja dele, já que o caráter de uma pessoa
está dentro de si, é o verdadeiro valor que deve ser considerado. Algo para ser
invejado.
Pare um pouco o que está fazendo (mesmo se o que estiver fazendo seja
ler esse Dvar Torá), e reflita. Quais será que são os nossos valores? O que
será que consideramos importante em nossas vidas? O mundo atual está com seus
valores invertidos. Hoje em dia, as pessoas se importam demasiadamente com os
bens financeiros e com a tecnologia presentes em suas vidas. Vestir uma roupa
de marca para que os outros vejam, possuir o iPhone mais moderno do mercado (me
incluo nisso), chegar nas festas de casamento com um carro caro para que todos
reparem. Não nos faltam exemplos. Não é que devamos nos privar completamente do
materialismo, esquecê-lo e aboli-lo de nossas vidas. Se temos condições, podemos
nos dar o luxo. Porém, o ponto crucial é a importância que damos a tudo isso.
Não foi a superioridade financeira prevista por Yossef que fez os seus irmãos
ficarem com inveja.
Atualmente o ser humano não dá tanta importância para o seu caráter,
sua espiritualidade, seu ser interior, como dá às suas aparências. Será que
procuramos ser boas pessoas, fazer os outros se sentirem bem, cumprir as
Mitsvot da melhor maneira que podemos, com a mesma vontade com a qual
investimos em nossos bens materiais? É pra se pensar. Ninguém muda de uma hora
pra outra. Há um longo caminho a percorrer. Mas parar para refletir sobre a
atual situação de nossas vidas já é uma ótima largada para essa maratona.

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