sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Lech Lechá - Sorria, Você Está Sendo Filmado

Justo ontem, ouvi de um amigo que no Canadá as pessoas não costumam atravessar a rua quando o farol de pedestres está vermelho. Pode ser a menor viela, não haver nenhum carro, o canadense ficará plantado aguardando sua “permissão” para poder cruzar a rua. Para um brasileiro, isso não faz o menor sentido: “Se não há nenhum carro vindo, não há o menor perigo para mim, portanto vou atravessar!” Apesar de sua mentalidade brasileira, meu amigo me disse que ele também fica esperando o semáforo esverdear, para assim atravessar. “Por que isso?” perguntei, um tanto chocado. E ele me respondeu: “Simplesmente porque ando na rua de kipá, e eu seria o único a ‘infringir essa lei’, então as pessoas pensariam mal dos judeus”. Fiquei impressionado. E depois de refletir um pouco, cheguei na conclusão que seu pensamento possui origem em nosso patriarca Avraham.
A Parashá dessa semana nos conta, entre muitos acontecimentos da vida de Avraham, a briga entre seus pastores e os pastores de seu sobrinho Lot. Estes estavam deixando seus animais comerem de pastos que não lhes pertenciam, e Avraham não permitia isso. Os pastores de Lot alegavam que de qualquer maneira, no futuro, Avraham herdaria aquela terra, como Hashem lhe havia permitido, e portanto Lot seria o seu herdeiro já que ele não tinha filhos. Porém, nos diz o passuk que o povo dos Knaanim ainda morava naquele local, ou seja, Avraham ainda não tinha se tornado dono daquele pedaço de terra.
Devido à esta discussão, Avraham resolveu se separar de seu sobrinho. Disse ele para Lot: “Não vamos brigar. Vamos nos separar, pois somos irmãos”. O que quer dizer que eles eram “irmãos”? A final, Avraham era tio de Lot, e não irmão! Rashi da duas explicações. A primeira é que “irmãos” quer dizer parentes, não exatamente irmãos. A segunda explicação é que “irmãos” quer dizer parecidos fisicamente. Avraham disse para Lot que eles deveriam se separar para não brigar, pelo fato de eles terem uma feição parecida. À principio, essa segunda explicação parece estranha: só porque eles eram parecidos, não deveriam brigar? O que tem a ver uma coisa com a outra?
O livro Shaarei Aharon explica que quando Avraham disse que eles eram parecidos, ele quis dizer o seguinte: “Lot, já que somos parecidos, quando as pessoas ouvirem que os seus pastores roubam, vão pensar também que eu roubo. As pessoas associarão você comigo, e pensarão que eu também deixo meus pastores se comportarem dessa maneira desleal”. Avraham era conhecido por sempre ensinar as pessoas a maneira mais leal de agir em todas as situações do dia a dia. Se as pessoas pensassem que ele deixava seus animais comerem do pasto alheio, todo o seu esforço iria por água abaixo. “Se Avraham rouba, por que eu não posso roubar?!” Avraham não podia deixar isso acontecer, ele não podia viver com isso. Então, precisou se separar de seu sobrinho para evitar desprezar o nome de Hashem, que vivia  praticamente estampado em sua testa.
A Guemará no tratado de Shabat diz que um sábio não pode andar com uma mancha em sua roupa. A punição pra um Talmid Chacham que anda com uma mancha em sua roupa é muito severa. O que quer dizer essa Guemará? Que diferença faz se há uma mancha na roupa do rabino? A resposta é que isso passa uma má impressão. Se um sábio, aquele que representa a Torá de Hashem, anda com roupas sujas, as pessoas vão ter maus pensamentos sobre ela. “Se é isso o que a Torá significa, essas roupas sujas, por que eu preciso disso?” Porém, há uma outra explicação para essa Guemará. O Meiri, um grande comentarista do Talmud, explica que a palavra “mancha” nesse caso não quer dizer apenas uma mancha na roupa. Ela também alude à uma mancha nos atos da pessoa. A punição para um sábio que possui manchas na forma como age é bem severa, porque ele é a melhor representação do resultado do estuda da Torá, portanto devendo passar um ar de respeito.

Atualmente, somos diariamente julgados pelos nossos atos e pela forma como nos comportamos no dia a dia. Querendo ou não, somos representantes da religião judaica, e, automaticamente, de Hashem. Cada ato que fazemos pode resultar em sujar a imagem de nosso povo. Devemos aprender com Avraham, ter isso sempre em mente, para podermos proporcionar o oposto: santificar o nome de Hashem nesse mundo, ao agir de forma íntegra e respeitosa, pelo menos perante as outras pessoas.

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