Já que estamos na época de copa do mundo, cabe aqui um fato
que ocorreu comigo há alguns meses: certa vez, discuti com um rabino o assunto
“assistir a jogos de futebol”. Eu adoro assistir a jogos, mesmo que seja um
jogo não tão bom como (dando um exemplo atual) Costa do Marfim contra Japão. O
rabino alegava que cada jogo assistido são duas horas perdidas no dia, que
poderiam ser melhor aproveitadas. Então me disse que eu deveria diminuir o
tempo destinado à jogos de futebol. Não parar completamente, mas sim assistir
apenas um tempo, ou algo do gênero. Eu concordei com ele que realmente o tempo
é perdido. Porém, cheguei na conclusão que eu não estava pronto a diminuir o
tempo gasto com os jogos. Isso porque eu sei que gosto tanto disso, que me fará
falta se eu passar a assistir só metade. Espero algum dia alcançar esse nível
de não me importar tanto com futebol, e assim perder menos tempo assistindo aos
jogos.
Todos conhecem o ditado que não se pode dar um passo maior
que a perna. Quando alguém resolve pular etapas e não está preparado, é muito
raro obter sucesso. Na Parashá dessa semana, encontramos uma ríspida discussão
entre Korach e Moshe. O primeiro, estava acompanhado de 250 pessoas do povo,
que nem pertenciam à tribo de Levi. Ao contrario do que parece, o líder da
oposição e seus apoiadores, não estavam reivindicando o mesmo direito. Enquanto
Korach queria se tornar o líder de sua família ao invés de seu primo Elitsafan
que foi apontado por Moshe, as 250 pessoas estavam querendo trabalhar no Mishkan, apesar de não serem da
tribo de Levi.
A diferença entre Korach e seus
seguidores é expressa claramente na morte de cada um. Korach foi engolido pela
terra. Já os 250, foram queimados por um fogo que veio do céu. A morte de
Korach pode até ser considerada menos grave, uma vez que ele estava
reivindicando por um direito que até tinha a ver com seu status (líder de sua
família). Ao contrario dos outros, que queriam fazer um trabalho que era
espiritualmente muito elevado, proibido para quem não era Levi. Eles desviaram
dos mandamentos da Torá,
onde cada função é dividida e passada para quem está apto a realiza-la.
Aspiração espiritual é importante, porém, é preciso ter a cabeça no lugar,
saber que existem limites. Por mais que a pessoa queira estar mais conectada
com D’us, isso deve ser feito com os pés no chão. A elevação espiritual é como
subir uma escada: um degrau de cada vez.
Esse pecado de tentar atingir níveis
espirituais que não são possíveis, é encontrado algumas vezes na Torá, antes mesmo dessa historia
de Korach. Sobre o Nazir, aquele que decide não beber vinho nem cortar seu
cabelo por um determinado tempo, está escrito que se ele se encontra numa tenda
com um morto, ele vira impuro, e precisa trazer um sacrifício no templo para
ser perdoado, uma vez que o Nazir é proibido de se impurificar. Porém, a Torá escreve que esse sacrifício
não deve ser trazido pelo fato da pessoa ter se impurificado; não foi esse o
seu erro. E sim o motivo para o sacrifício é o fato da pessoa ter virado um
Nazir. Mas como assim? Não é bom se separar de bens materiais desse mundo para
atingir um nível espiritual mais alto?! O Netsiv responde que se aquela pessoa
chegou numa situação na qual acabou se impurificando, quer dizer que ela não estava
preparada para virar um Nazir e se manter num nível espiritual tão elevado. Por
isso, fez um “pecado” (como a Torá
se refere ao seu erro). Deu um passo maior que a perna.
Os filhos de Aharon, Nadav e Avihu,
também cometeram o mesmo erro. Eles achavam que se encontravam em um status tão
elevado, que lhes era permitido oferecer um incenso quando Hashem não havia
ordenado. Suas intenções eram boas, queriam se conectar com Hashem. Porém,
foram mortos, uma vez que não lhes cabia naquele momento oferecer uma oferenda
“nova”, que Hashem não havia ordenado. E qual foi sua morte? A mesma das 250
pessoas que estavam com Korach! Um fogo veio e os matou. Porque todos cometeram
o mesmo pecado.
Atualmente, muito se faz com o
objetivo de se conectar com Hashem, de estar mais perto Dele. Cabe a cada um de
nós saber o nível em que se encontra, e acrescentar um pouco de cada vez no
respectivo crescimento espiritual. Todos temos de avançar, porém se dermos um
pulo muito grande, podem ser deixadas lacunas que depois nos causarão
problemas. Devemos dar um passo do tamanho de nossas pernas.

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